Ele não respondeu

             Eu tinha chegado tarde do trabalho. Ao abrir a porta você veio ao meu encontro segurando o controle da televisão. Encontrei Joana sentada no chão, desolada, não conseguindo segurar as lágrimas.

            – Chamei Caio por mais de dez minutos e ele não respondeu… chamei por mais de cem vezes e ele não virou para mim… ele só despertou quando ouviu a porta abrir.

              Ainda não sabíamos o teu diagnóstico, estávamos perdidos em tua apatia. Os exames confirmaram que não era surdez, o fonoaudiólogo pediu para fazermos uma série de exercícios para despertar a tua atenção e a fala.

             Mas foram naquelas primeiras lágrimas de Joana, desaguando em um abismo desconhecido e cada vez mais fundo, que percebemos nossas primeiras cicatrizes, sentindo você deslizar de nossas mãos frágeis e apavoradas.

             Naquela noite sequer tentei represar o choro de tua mãe e nem estancar minha primeira ferida, fiquei à deriva, submerso em teu silêncio, apavorado por aceitar nossa primeira derrota.

Ele é apenas autista!

              – Ele é apenas autista, não é surdo e nem burro!

           Esta frase é de tua mãe, alertando-me quando falo contigo num tom mais alto que deveria ou quando subestimo você, como se não escutasse ou não me entendesse.

             Confesso que fico meio perdido quando não consigo atrair tua atenção e me descuido falando como se você fosse invisível.

            Na verdade, eu é que não sei te ouvir, nem consigo te compreender. Antes do teu diagnóstico, não tinha a menor ideia do que seria o autismo, apenas preconceitos surdos e burros.

             Um dia prometo que saberei o que você diz e, aos poucos, você me ensinará a conversar.

Não é fácil

           Ontem tua mãe disse que você, ao acordar, parecia estar sussurrando, bem baixinho, palavras que um dia já falou: “vovó”, “bola”, “bala”. Era como se estivesse saindo de um sonho bom, como se estivesse encontrado o reino mágico das palavras.

           Às vezes sonho com você falando. São sonhos parecidos, primeiro você diz uma palavra solta e, ainda sem esperança, peço que você diga outra palavra. A cada palavra que você diz, pulo de alegria, ouvindo tua voz novamente, saboreando cada fonema, vibrando a cada som conquistado.

              Nestes sonhos, corro ofegante e cheio de lágrimas atrás de tua mãe para te ver brincando de falar.

           Não é fácil, Caio, acordar desses sonhos. Também não é fácil aguentar o restante do silêncio da noite, quando a ilusão se esvazia, chorando para o nada e revirando minhas preces, como se pudesse me libertar de um pesadelo com os olhos abertos.